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História, imagem e narrativas
N 12, abril/2011 - ISSN 1808-9895 -
http://www.historiaimagem.com.br
o
 
O ressurgimento dos deuses nórdicos
Johnni Langer
Pós-doutor em História Medieval pela USP
Prof. Adjunto em História Medieval na UFMA
Johnnilanger@yahoo.com.br
BERNÁRDEZ, Enrique.
Los mitos germánicos.
Madrid: Alianza Editorial, 2010 (2ª.
edição), 328p.
Os deuses nórdicos estão de volta: presentes no cinema, nos quadrinhos, na
literatura, em jogos eletrônicos e em outras mídias contemporâneas. Desde que
ressurgiram na arte ocidental após o século XIX, não parecem ter abandonado a
imaginação, fornecendo inspiração para a criação de novas identidades entre os jovens,
ou atraindo a atenção da indústria de entretenimento. À parte esse grande interesse, a
maioria das representações esconde diversos valores sociais e culturais inerentes ao
nosso tempo, que acabam afastando as pessoas de um entendimento do que realmente
significavam essas divindades para sua época. Em nosso país, infelizmente, as
principais fontes para o resgate dos mitos escandinavos, as
Eddas,
ainda não foram
traduzidas, e as publicações ainda são precárias.
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A respeito de mitologia escandinava, até o presente momento temos alguns manuais traduzidos em
língua portuguesa: PAGE, Raymond Ian.
Mitos nórdicos.
São Paulo: Editora Centauro, 1999;
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História, imagem e narrativas
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Cartaz promocional do filme
Thor
(2011), dirigido por Keneth Branagh, baseado no personagem
da Marvel. Fonte:
www.imdb.com
Acesso em dezembro de 2010. As representações do deus
Thor na arte contemporânea são devedoras do século XIX, especialmente a estética operística,
mas também influenciadas pelos padrões do imaginário barbárico popularizado pelo escritor
Robert Howard e seus principais artistas gráficos, como Frank Frazetta e Boris Valejo. Em
especial, o uso do martelo como instrumento de poder físico, de virilidade, de marcialidade. Com
exceção da maça do período feudal, martelos não foram utilizados pelos povos germânicos como
arma de guerra, muito menos pelos vikings. Em diversos filmes, quadrinhos e outras mídias
(como na série
Northlanders)
os guerreiros vikings escandinavos empregam martelos como arma
de guerra. Na mitologia nórdica original, o martelo do deus Thor era um instrumento mágico de
combate contra monstros e gigantes (inclusive possuía um defeito: seu cabo era muito curto...) e
não um objeto marcial como a lança Gungnir, de Odin - este sim, uma deidade que participa de
batalhas entre os humanos e pode ser considerado um ser da guerra.
2
Desta maneira, o relançamento do manual
Los mitos germánicos,
é extremamente
valioso para um público brasileiro cada vez mais interessado no assunto. Seu autor,
Enrique Bernardez, é professor da Universidade Complutense de Madri, especialista na
                                                                                                                                                                              
DAVIDSON, Hilda.
Escandinávia.
Lisboa: Editorial Verbo, 1987; DAVIDSON, Hilda.
Deuses e mitos
do norte da Europa.
São Paulo: Madras, 2004. Para uma resenha crítica desta última obra, consultar:
LANGER, Johnni. Revelando a religiosidade viking.
Saeculum
12, 2005. Disponível em:
http://www.cchla.ufpb.br/saeculum/saeculum12_res01_langer.pdf
Sobre mitologia nórdica, também foi
publicada a coletânea de estudos: LANGER, Johnni.
Deuses, monstros, heróis:
ensaios de mitologia e
religião viking. Brasília: Editora da UNB, 2009. A quantidade de artigos, ensaios e resenhas publicados a
respeito da temática concentram-se especialmente na revista
Brathair
(www.brathair.com). Para um
levantamento
destas
publicações,
consultar
a
seção
artigos
do
site:
https://groups.google.com/group/scandia
Intencionando obter um panorama básico e avançado das fontes
e bibliografias sobre mitologia germânica, verificar: LANGER, Johnni. Guia crítico da mitologia
escandinava:
fontes
e
bibliografia.
Webartigos.com,
2010.
Disponível
em:
http://www.webartigos.com/articles/45053/1/GUIA-CRITICO-DA-MITOLOGIA-ESCANDINAVA-
FONTES-E-BIBLIOGRAFIA/pagina1.html
Acesso em dezembro de 2010.
Sobre o tema consultar: LANGER, Johnni. As representações do deus Thor nas HQs.
Brathair
6(1),
2006. Disponível em:
www.brathair.com
Acesso em dezembro de 2010.
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tradução de textos nórdicos e autor de muitos estudos a respeito da lingüística
germânica medieval.
O livro está dividido basicamente em dois eixos, um panorama a respeito da
religiosidade germânica pré-cristã, e o segundo, considerações sobre os mitos. A
introdução prepara o leitor para adentrar o universo religioso dos germanos pré-cristãos,
um ambiente muito diferenciado das vivências de fé do mundo atual. O primeiro
capítulo examina as principais fontes para esse estudo, suas diferenças e
especificidades: a obra de Tácito, as
Eddas,
os poemas escáldicos, as crônicas históricas
escandinavas e anglo-saxãs, as sagas islandesas, as fontes literárias e folclóricas tardias
e a cultura material da Era Viking.
A fim de conceder ao leitor um panorama mais didático, o autor separou entre os
capítulos 2 a 4 os elementos genéricos da religiosidade germânica, comuns
especialmente para os povos da Antiguidade Tardia, mas sem deixar de atentar também
para os aspectos básicos da vida cotidiana, social, política e econômica, sem os quais
não se pode entender os princípios religiosos. Também alguns estudos sobre a Idade do
Bronze e os grandes vestígios de arte rupestre da Escandinávia não foram esquecidos,
sendo importantes aliados na reconstituição dos sistemas de fé daquela região antes do
medievo.
O autor inicia de forma mais completa os estudos da área escandinava a partir do
quinto capítulo, a respeito das crenças sobre a morte. Aqui o estudioso acredita que
originalmente o reino de Hel era apenas uma região oculta, que foi personificada a partir
de influências clássicas até transformar-se na filha de Loki durante a Era Viking. No
próximo capítulo, são detalhados os rituais relacionados à passagem da vida para o
outro mundo: sepultamentos por incineração, inumação, as funções rituais do barco, os
funerais e enterros familiares.
Na seção seguinte, Bernárdez dedica-se a examinar os sacrifícios rituais, a base da
religiosidade germânica. Cruzando informações de autores clássicos, como Beda, à
dados de recentes escavações arqueológicas, o autor procura reconstituir os rituais, seus
oficiantes, os locais de cerimônias, as procissões, as festas e danças associadas a estas.
O último capítulo dedicado a religiosidade, “De magas y adivinas”, investiga a o papel
 
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das práticas mágicas nas sociedades germânicas, passando pelas runas, métodos de
adivinhação do futuro, profecias e a magia seidr.
Cena do quadrinho
Vikings,
episódio Lindisfarne 1 (Vertigo 9, 2010, Original
Northlanders),
com roteiro
de Brian Wood e arte de Dean Ormston. No enredo, um menino anglo-saxão invoca os antigos deuses de
sua terra, em contraposição ao cristianismo vigente no momento da invasão dinamarquesa da Alta idade
Média. Apesar de algumas diferenças, o panteão mitológico dos antigos germanos era quase idêntico ao
escandinavo, compartilhando diversas crenças e imagens em comum. No caso desta sequência da hq, o
desenhista optou por criar uma deidade da guerra que não permite praticamente uma identificação
objetiva: tanto pode ser Donnar (Thor, devido à tempestade e aos raios), ou Wodan (Odin, pelo capacete
com asas, uma criação estética das óperas oitocentistas) ou Tiwaz (T�½r, pelo uso da espada). A espada
recorda o padrão utilizado por Conan nos filmes e quadrinhos (ou mesmo RPGs), enquanto a maça de
corrente é uma invenção da cavalaria feudal, inexistente entre os povos germânicos do período retratado.
O cinturão com caveiras recorda um estereótipo relacionado com os denominados povos “bárbaros” e
muito associado aos vikings depois do século XIX: o colecionar de caveiras, para uso em adereços
pessoais ou como taça. Este estereótipo difundiu-se também no cinema, como no filme
Asterix e os
vikings
e
Desbravadores.
O resultado cênico desta ilustração é o tratamento dos deuses nórdicos como
figuras de poder, de virilidade e de guerra, também influenciada pela imagem barbárica após o sucesso
 
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da obra de Robert Howard na arte ocidental.
Os seres sobrenaturais, como os gigantes e elfos, são o primeiro tema mitológico
propriamente dito, tratados pelo autor. Participantes do caos e da ordem, primeiramente
não eram nem malignos e nem positivos, mas a essência dos jotuns (gigantes) era vista
como perigosa. São seres semi-civilizados que vivem da caça, pesca e pastoreio, ou
seja, intimamente relacionados com as forças primárias da natureza. Somente em
algumas situações os jotuns são descritos como seres de grande tamanho, mas com o
tempo, o folclore tratou de relacioná-los a um tamanho sempre excepcional (segundo o
autor, a partir do século XIV). Em todo caso, nem sempre eram vistos como perigosos,
pois em algumas ocasiões, são sábios, amigos e até mesmo ajudam os deuses no
momento de perigo ou dificuldade. As gigantas, por exemplo, estavam muito próximas
dos deuses e até mesmo foram objetos de culto e estavam integradas ao panteão divino,
como Skádi. Outros seres em que o tamanho teria sido modificado pelo folclore
cristianizado, foram os anões (Dvergar) – que Bernárdez denomina de Tuergos – um
pensamento também seguido pelo mitólogo Régis Boyer.
3
Nos capítulos 10 a 12, o escritor detalha as questões envolvendo as entidades
femininas e as deusas, desde os germanos da antiguidade clássica até os últimos
momentos do paganismo na Escandinávia. Algumas deusas são particularmente
analisadas, como Frigg e Freyja, onde Bernárdez percebe uma diferença cultual entre as
duas: enquanto a primeira era adorada em diversas regiões da Europa, a segunda era
venerada somente nas regiões nórdicas. As questões de fertilidade, comumente
associadas às deusas, são aprofundadas no capítulo seguinte, a respeito dos Vanes.
A principal divindade da mitologia germânica, Odin, é estudada em dois capítulos
distintos: 14, onde a figura de Wódanaz aparece como reflexo dos reis-guerreiros e
também como deus dos mortos entre os germanos antigos, cujo vínculo como regente
de dinastia aplicava-se a mitos de origem; 15, onde os aspectos de magia e xamanismo,
típicos da Era Viking, são esclarecidos, especialmente nos poemas éddicos. O deus
                                                            
3
BOYER, Régis. Nains.
Héros et dieux Du Nord:
guide iconographique. Paris: Flammarion, 1997, pp.
106.